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O QUE LUCRA NA INFLUÊNCIA?

  • viniciusvba
  • 23 de set. de 2025
  • 3 min de leitura

As manifestações contra a chamada PEC da blindagem, realizadas no último final de semana do dia 21/09/25, revelaram um contraste claro: enquanto nomes históricos como Chico, Caetano, Gil e Djavan continuam a sustentar a linha de frente em defesa pública da democracia, boa parte da nova geração de artistas permanece em silêncio.

Esse vazio não é apenas geracional, é estratégico e mostra como muitos ainda enxergam o posicionamento político como risco comercial, quando na prática é justamente ele que eterniza carreiras e solidifica legados.


É bonito, mas também é melancólico. Onde está a nova geração? Sim, tivemos Marina Sena e Os Garotin no Rio, Emicida em São Paulo, Anitta gravando vídeo em apoio. Mas são exceções. O grosso da nova cena cultural e digital continua em silêncio.



E esse silêncio não é inocente. Dentro da minha experiência com marketing de influência e TV aberta, acompanho como artistas e marcas decidem o que publicar e o que evitar. O Brasil é o segundo maior mercado de influência do mundo e, em 2023, esse mercado movimentou mais de R$ 16 bilhões, segundo dados da Nielsen e do IAB Brasil. Ou seja: quando um artista ou influenciador se cala, não é porque “não tem opinião”, é porque teme perder contratos. O medo não é de perder público, é de perder marca.


Só que esse medo é baseado em uma lógica intelectualmente limitada e frágil das marcas e principalmente dos artistas. Pesquisas recentes do Datafolha e do IPEC mostram que a maioria dos brasileiros apoia a democracia e é contra retrocessos autoritários. Ou seja: o povão não pune quem defende direitos básicos. Pelo contrário, a identificação aumenta.


O que está em jogo é um cálculo curto: “se eu falar, talvez não feche contrato com a margarina X”. Mas será que esse contrato vale mais do que um legado cultural que se mantém por décadas?



Vejamos o contraste. Anitta foi a artista brasileira mais ouvida fora do país em 2022 (Billboard e IFPI). E isso depois de finalmente assumir publicamente uma voz ativa contra Bolsonaro, contra o racismo, em defesa de pautas sociais. A tese ridicula de que “quem lacra não lucra” cai por terra. Anitta é a prova de que posicionamento não derruba carreiras, amplia.


Marília Mendonça, inclusive, foi outro exemplo desse impacto: ainda que viesse do sertanejo, um gênero majoritariamente conservador, ela não se furtou a se posicionar contra Bolsonaro. Esse caráter a ajudou a quebrar a bolha para além dos fãs de sertanejo, e mesmo após sua partida precoce ela segue no topo das paradas. Sua memória e sua força cultural se perpetuaram justamente porque ela ousou se colocar.



Enquanto isso, artistas top das paradas e principalmente do trap e do rap seguem hesitantes. E aqui está a maior contradição: o trap e o rap nasceram como música de resistência, da luta de classes, da denúncia social. Ainda assim, muitos dos que hoje lideram rankings de venda e streams se esquivam do posicionamento político, mesmo tendo milhões de seguidores e um alcance que poderia transformar vozes individuais em causas coletivas.


Analisando artistas da geração 70 e 80 como Sidney Magal, Wando ou Agnaldo Timóteo tiveram imensa popularidade em rádio e TV, lotaram casas de show, venderam discos em massa. Mas hoje, no imaginário cultural, estão restritos à nostalgia. Não atravessaram o tempo como símbolos políticos ou sociais. Sidney Magal, por exemplo, já admitiu em entrevistas que não acumulou grande patrimônio e chegou a perder uma mansão em disputa judicial. Não é questão de talento: é que popularidade sem causa não cria eternidade.



Chico, Caetano e Gil, por outro lado, seguem sendo celebrados e remunerados não só pelos shows, mas por direitos autorais que atravessam gerações, por convites institucionais, por serem considerados patrimônio vivo. Seus catálogos são estudados, suas músicas tocam em escolas, novelas, documentários. Eles se tornaram intocáveis porque escolheram causas maiores do que eles mesmos.


Aqui está o ponto central: neutralidade é frágil. Se a carreira de um artista não resiste a um posicionamento mínimo em defesa da democracia, será que essa carreira é sólida de verdade? O que é mais arriscado: perder um contrato pontual ou perder a chance de se tornar referência histórica?



A verdade é que a neutralidade não é uma escolha estratégica: é o marketing do medo. E o medo não constrói legados. Os que se calam dependem do algoritmo e das marcas. Os que se posicionam criam vínculo afetivo real com o público e vínculo resiste ao tempo.


O silêncio é uma escolha política. Quem não fala em defesa da democracia escolhe, conscientemente, proteger o status quo. E, nesse processo, abre mão da eternidade.


No fim, a equação é simples: quem se cala pode até vender margarina hoje. Mas quem se posiciona ganha a eternidade em prestígio, em legado e, sim, em estabilidade econômica. Porque no longo prazo, quem lacra lucra.

 
 
 

1 comentário


Alexandre Bandeira de Andrade
Alexandre Bandeira de Andrade
24 de set. de 2025

Muito bom o texto! Cada vez mais as pessoas preferem o ganho imediato ao longo prazo, seja em termos financeiros, seja em termos de legado, perdendo a oportunidade de se tornar lendas vivas.

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SOBRE MIM

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​Especialista em comunicação e cultura, sou completamente apaixonado pelo Brasil e pela riqueza do nosso jeito de pensar. Desde 2017, construo minha trajetória na gestão de projetos, produção de conteúdo e marketing digital para TV, internet e audiovisual, sempre unindo criatividade, estratégia e uma visão social ativa.

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